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PROLÓGO: O SARGENTO, O CIGANO E O TRIBUNAL DAS ALMAS

  • dd2701
  • Mar 8, 2025
  • 6 min read

A fila para a reencarnação estava cada vez mais rápida. Centenas de almas aguardavam, com ansiosa expectativa, a oportunidade de recomeçar. Aqueles que chegavam ao purgatório, um lugar implacável, onde as sombras das vidas passadas eram pesadas e longas, não viam a hora de receber uma nova chance. Tinham se arrependido, aprendido e refletido, talvez não completamente, mas o suficiente para desejar fazer melhor dessa vez.


O purgatório era um lugar cruel e sombrio, onde o céu, eternamente marcado por uma lua vermelha, espalhava sua luz macabra sobre uma terra devastada. O ar denso e sufocante, impregnado de enxofre, parecia queimar os pulmões de quem respirava. Ao redor, vulcões em erupção lançavam lavas ardentes, e criaturas demoníacas, monstruosas e deformadas, vagavam por entre as ruínas de antigas civilizações. Era ali, nesse cenário de destruição, que as almas enfrentavam as consequências de suas vidas passadas. Contudo, o purgatório não era apenas um lugar de punição; também oferecia transformação. Mesmo nas mais sombrias horas de sofrimento, surgiam momentos de redenção, união e amizade — algo improvável, mas real. No entanto, o recomeço nunca era simples, e o perdão nem sempre se apresentava com facilidade.


Dentre todas as almas na fila, duas se destacavam. Dois dos criminosos mais temidos e perigosos que a humanidade já havia conhecido. Esses dois haviam passado por tantas vidas repletas de sofrimento e destruição que, quando finalmente se encontraram no purgatório, algo inesperado aconteceu. Em meio ao caos e ao tormento, eles se tornaram amigos inseparáveis. Esses dois homens, conhecidos entre as almas como "Sargento" e "Cigano", estavam prestes a se despedir daquele lugar. Eles haviam enfrentado suas penas juntos, sobrevivido aos tormentos e saído do outro lado mais humildes, mas não menos complexos.


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Número 5789, por favor. Um passo à frente — chamou a voz de um dos juízes das almas, sentado diante de uma das centenas de mesas no tribunal.


O tribunal era um lugar vasto e impessoal, onde se decidia o destino de milhões de almas. Ali, as decisões eram definitivas, e o juiz que comandava aquele espaço não tinha piedade.


— Chegou sua vez, rapaz. Espero que tenha uma vida menos complicada dessa vez. Vê se toma juízo, hein? — comentou o amigo conhecido como "Sargento", número 3456 para os juízes à sua frente, virando-se para o Cigano.


O Sargento, um homem de postura imponente e passado violento, nunca fora alguém de muitas palavras suaves, mas, de alguma forma, as horas passadas ao lado do Cigano lhe ensinaram a importância da amizade.


— Você também, Sargento. Obrigado por tudo. Nunca imaginei que teria uma amizade verdadeira em um lugar tão infernal. Você sempre será como um irmão para mim. — respondeu o Cigano, número 5789, com um sorriso que, para alguém com seu passado, parecia uma raridade.


O Sargento, mesmo com sua força e bravura, não conseguia esconder um leve desconforto. Era raro para ele se sentir vulnerável. Mas naquele momento, ele não se importava de ser sincero:

— Fico até sem graça. Esse lugar seria muito sem chato sem você por perto. Quem mais aqui poderia ser minha dupla caótica, capaz de tocar o terror até mesmo por aqui? 


O Cigano, com um sorriso irônico, respondeu:

(Risos) Cara, me diverti muito. Mas é isso aí, uma hora a gente teria que reencarnar. Não há espaço para pessoas como nós na existência. Como é mesmo que dizem? "Temos que evoluir!"


O Sargento soltou uma gargalhada estrondosa.

— Maior conversa fiada. Qual o problema em ser vilão? Qual o problema em abraçar minha maldade? Eu quero ser mal e pronto. — disse ele, com um olhar desafiador, como se estivesse disposto a encarar a eternidade com suas próprias regras.


O Cigano, no entanto, sabia que isso não era tão simples assim.

— Você sabe que não funciona assim. Quem dera pudéssemos seguir nossa natureza. As consequências não são brandas. Quanto pior a gente é, mais a gente sofre.


O tom de sua voz, normalmente sarcástico, agora trazia uma profundidade quase filosófica. Ele sabia que o purgatório não era apenas uma punição, mas uma chance de aprendizado. No entanto, esse aprendizado nem sempre era bem-vindo. Às vezes, o sofrimento era a única forma de ensinar algo a almas teimosas.


Já falei uma vez, se eu tiver que repetir, você será mandado para a solitária das trevas, número 5789. — interrompeu o Juiz das Almas, uma figura austera que estava ali para garantir que as regras fossem seguidas.


— Perdão, senhor. Estou pronto. — respondeu o Cigano, com humildade, mas sem perder a dureza que sempre lhe fora característica.


O Juiz olhou para o Cigano com um olhar penetrante.

Pois bem. Número 5789, uma alma de nível inferior, mas com inteligência acima da média das bestas mais burras. Nas vidas que teve, todas foram voltadas para o mal: roubou, matou, causou uma guerra, destruiu famílias. Espero que seu tempo aqui tenha servido para repensar sua trajetória.


O Cigano não hesitou e respondeu com um tom mais sério:

— Com certeza, senhor. Dessa vez será completamente diferente.


O Juiz fez uma pausa antes de continuar, como se estivesse avaliando a sinceridade da alma diante dele.

Queremos muito acreditar nisso. Caso falhe na sua nova existência, não haverá saída. Não daremos outra chance. Sua alma se extinguirá para todo o sempre.


O Cigano ficou em silêncio por um momento, absorvendo a gravidade das palavras do Juiz.

— Não acontecerá, senhor. Para onde serei enviado desta vez? — perguntou ele, com um tom de esperança renovada.


Para o planeta Terra. Irá reencarnar no Brasil, na América do Sul, em uma família de condições modestas, mas com bons corações. Não estrague a vida deles, porque essas almas lhe receberão de braços abertos. Assine o documento de acordo com o seu destino.


O Cigano assentiu, sem hesitar, e assinou o documento que lhe seria entregue, sabendo que uma nova oportunidade surgiria. Ele não sabia o que o futuro reservava, mas estava decidido a não falhar.


O Juiz das Almas então chamou o próximo.

Próximo, número 3456. Dirija-se à terceira mesa.


O Sargento, com um sorriso forçado, aproximou-se da mesa, onde uma Juíza das Almas o aguardava. Ele se sentou e encarou o olhar impassível da mulher, que começava a examinar seu caso.


Número 3456, vamos ver sua ficha. Já reencarnou 12 vezes desde o início de sua existência e, mesmo tendo vivido em doze mundos diferentes, não conseguiu mudar sua categoria de alma. Entre os seus maiores atos de crueldade, estão uma chacina com dezenas de mortes, colaboração no tráfico de pessoas inocentes e a formação de uma quadrilha religiosa responsável por vários suicídios.


O Sargento, sem perder a compostura, respondeu com uma leve risada.

Tudo em legítima defesa, senhora, ou por pura necessidade de sobrevivência.


A Juíza das Almas o olhou com uma frieza imensa e, com um tom gelado, respondeu:

Não estou aqui para escutar suas desculpas. Você já foi julgado e condenado há milhares de anos. Está pronto para a sua nova vida?


O Sargento se endireitou na cadeira, tentando esconder o nervosismo.

— Sim, senhora. Estou bastante ansioso. Mal posso esperar para fazer diferente.


Mas antes que a Juíza pudesse dar continuidade, um funcionário do Tribunal interrompeu.

Senhora, cancele a reencarnação dessa alma. Ele terá outra função antes de ter o direito de reencarnar.


O Sargento ficou chocado.

— Como assim? O que está acontecendo? — perguntou ele, incrédulo.


A Juíza das Almas se virou para ele, com uma expressão impassível.

Número 3456, sua vez terá que ser adiada. Por favor, retire-se da fila e aguarde novas instruções.


A confusão tomou conta do Sargento, e ele não conseguiu esconder o pânico.

— Mas, o quê? Eu não quero ficar aqui! Meu melhor amigo está pronto para ir embora e eu também! Não tenho mais ninguém por aqui! Não façam isso comigo!


A Juíza manteve seu olhar severo.

Número 3456, isso não é uma opção. Por favor, retire-se da fila e aguarde um novo chamado.


O Juiz das Almas, em tom definitivo, anunciou:

Número 5789, tudo pronto. Feche os olhos e sua alma deixará este lugar.


O Cigano, antes de fechar os olhos, olhou para o Sargento, com uma expressão preocupada.

— Só um momento, senhor. Sargento, aconteceu alguma coisa?


O Sargento, com um olhar vazio, respondeu com tristeza.

— Irmão, não irei reencarnar. Mas não se preocupe comigo. Vá viver sua nova existência, você merece. Tenho certeza de que fará melhor desta vez.


Os dois amigos se abraçaram com força, um gesto silencioso de despedida. Eles apertaram as mãos pela última vez, conscientes de que seus destinos haviam se separado para sempre. Um reencarnou. O outro não. O Cigano iniciou sua nova jornada, com a esperança renovada. O Sargento, por sua vez, ficou para trás, imerso na maior tristeza que jamais imaginou sentir.

 
 
 

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